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Ficinski: “85% dos que continuarão andando de ônibus vão ajudar a pagar a passagem dos 15% que vão andar de metrô” |
“Metrô vai encarecer passagem de ônibus”
Lubomir Ficinski, urbanista e ex-diretor de Transportes da Urbs
Publicado em 25/10/2011 | Celso Nascimento
Por
duas vezes presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano
de Curitiba (Ippuc) e participante do processo histórico de
transformação da capital paranaense em cidade mundialmente reconhecida
como modelo, o engenheiro e arquiteto Lubomir Ficinski entregou ao
prefeito Luciano Ducci, no último dia 4, sua carta de demissão do cargo
de diretor de Transportes que ocupava na Urbs. Motivo: discordância
quanto à prioridade dada à construção do metrô em detrimento da
modernização do sistema de ônibus.
Para Ficinski, as melhorias que deixaram de ser introduzidas poderiam garantir vida longa ao atual sistema com maior eficiência e a custos muito menores do que os previstos para o metrô. “O que vai acontecer é que 85% dos passageiros que continuarão andando de ônibus vão ajudar a pagar a passagem dos 15% que vão andar de metrô”. A promessa da prefeitura é de integrar o futuro metrô ao sistema atual com tarifa igual à do ônibus, mas, como observa o ex-diretor da Urbs, a passagem terá de subir para pelo menos R$ 3,10 para dar viabilidade econômica ao metrô.
Para Ficinski, as melhorias que deixaram de ser introduzidas poderiam garantir vida longa ao atual sistema com maior eficiência e a custos muito menores do que os previstos para o metrô. “O que vai acontecer é que 85% dos passageiros que continuarão andando de ônibus vão ajudar a pagar a passagem dos 15% que vão andar de metrô”. A promessa da prefeitura é de integrar o futuro metrô ao sistema atual com tarifa igual à do ônibus, mas, como observa o ex-diretor da Urbs, a passagem terá de subir para pelo menos R$ 3,10 para dar viabilidade econômica ao metrô.
Diplomado pela Universidade Federal
do Paraná (UFPR) em Engenharia Civil (1960) e em Arquitetura e Urbanismo
(1964), Ficinski fez parte da geração convocada pelo prefeito Ivo Arzua
(1962-67) para auxiliar na elaboração de um novo projeto urbano para
Curitiba, em substituição ao Plano Agache, que já não se adaptava à
realidade. Foi, à época, junto com Jaime Lerner, um dos fundadores do
Ippuc. Mais tarde, trabalhou em projetos que se tornaram ícones da
cidade, como o das canaletas exclusivas para ônibus e a implantação dos
expressos e dos binários. Leva também sua assinatura o projeto de
engenharia do Parque Barigui.
Ippuc
Ônibus ainda terá papel importanteVinicius Boreki
A construção do metrô não significa um abandono do ônibus, na avaliação do presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Cléver Almeida. “A vinda do metrô não anula a história e o futuro de Curitiba de investimentos em ônibus”, afirma. Ele cita os exemplos da Linha Verde e do Ligeirão como melhorias recentes do transporte.
Segundo ele, o metrô surge como solução para uma cidade estrangulada pelo número de carros. Por mais investimentos que se façam em ônibus, o número de veículos influência a velocidade do sistema – com o aumento de cruzamentos nos eixos.
Almeida admite que o sistema metroferroviário é mais custoso. No entanto, na operação dos ônibus, não constam valores embutidos, como a manutenção de vias públicas, terminais e estações-tubo. De acordo com ele, cada carro do metrô funciona por 30 anos e tem o mesmo custo de três biarticulados, cuja vida útil é de dez anos. A prefeitura garante que a tarifa será a mesma do sistema de ônibus, mas é impossível determinar o valor hoje em razão da possível variação de insumos até 2016.
Outro benefício indireto do metrô é o fato de as canaletas se tornarem um parque linear, com incentivo às bicicletas com a construção de uma ciclovia de aproximadamente 13 quilômetros e a melhoria de qualidade de vida das pessoas. “Com um tempo de permanência menor no sistema, as pessoas ganham mais tempo para fazer o que lhes interessa”, diz.
Em entrevista à Gazeta, Lubomir Ficinski defende mais
investimentos no sistema de ônibus, lamenta a lentidão de alguns setores
da administração municipal e critica a prioridade concedida ao metrô –
modal, segundo ele, muito caro e desnecessário para Curitiba agora ou a
longo prazo.
Por que razão o senhor pediu demissão da Urbs?
Fiquei muito frustrado por não poder modernizar o sistema. Fui
convidado pelo prefeito para fazer isso. Não consegui implantar o
desalinhamento das estações-tubo ao longo de toda a linha Norte-Sul [do
Santa Cândida ao Pinheirinho] como estava no projeto original, com 23
quilômetros. Depois, quando a prefeitura decidiu priorizar o metrô, o
projeto foi reduzido à metade – o desalinhamento seria feito apenas no
trecho Santa Cândida–Praça do Japão. Mas nem esse foi possível executar.
Por que não?
Eu não senti na prefeitura toda a vontade...
Faltaram recursos?
Não. O custo para o desalinhamento estava orçado em cerca de R$ 15
milhões. O governo do estado até chegou a transferir R$ 5 milhões para a
Urbs. Com esse recurso nós contratamos a construção de novas
estações-tubo e a reforma das antigas. Para as demais obras do
desalinhamento, já com o restante dos recursos garantidos, foram feitas
duas licitações – uma ficou deserta e outra a empresa vencedora não
provou qualificação técnica. E isso vem se arrastando desde o ano
passado. Não aconteceu mais nada. Chegou um momento em que eu cansei.
Que culpa tem a Urbs ou a prefeitura nisso?
A Urbs não teve culpa nenhuma: fez os projetos, deixou tudo pronto.
Mas, na prefeitura, as prioridades não estão definidas. Lá cada setor
tem suas próprias prioridades e cada qual está cuidando do seu quintal.
Desse jeito não se consegue fazer as coisas direito. E isso eu escrevi
para o prefeito.
Mas qual é a importância desse desalinhamento das estações?
É muito grande! No único trecho executado, o Boqueirão-Praça Carlos
Gomes, os “ligeirões” ganharam 20 minutos no trajeto, o que é quase a
metade do tempo antes do desalinhamento. Este seria também o tempo ganho
entre o Santa Cândida e a Praça do Japão. Se fosse até o Pinheirinho,
seriam 40 minutos ou mais! Se você multiplicar esse tempo menor por
milhões de passageiros, você vai ver o quanto isso se refletiria na
economia e na qualidade de vida das pessoas.
Este ganho de tempo seria suficiente para mostrar que o ônibus ainda é solução melhor do que o metrô?
Sem dúvida! É o tempo menor que permite maior frequência e
atendimento pleno mesmo nas horas de pico. Veja: a Urbs terminou há um
mês um levantamento do transporte coletivo na região Sul de Curitiba. Os
dados, portanto, são bem recentes: a demanda do Sul até o centro da
cidade é de 256 mil passageiros por dia e 30 mil na Linha Verde. Ora, a
proposta que viabiliza o metrô requer que o movimento seja de 456 mil
passageiros/dia em 2014. Isto é, seria preciso aumentar em 78% o número
de passageiros na linha do metrô em quatro anos. Não cabe na cabeça de
ninguém que isso possa acontecer, mas, com o desalinhamento, os ônibus
seriam capazes de chegar facilmente a atender ao pico da demanda de 31,5
mil passageiros.
Qualquer número abaixo de 456 mil significa que o governo precisaria subsidiar o preço da tarifa?
Olha, os metrôs sempre exigirão subsídios, aqui ou em Paris. Mas
veja: a Fipe [Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas] calculou que a
operação do metrô curitibano nesse trecho de 14 quilômetros vai custar
R$ 199 milhões por ano, o que dá R$ 16,5 milhões/mês. No mesmo trecho,
com ônibus, custa R$ 4 milhões, com potencial para transportar o mesmo
número de passageiros. A diferença, portanto, é de R$ 12 milhões por
mês. Lógico, essa diferença tem de entrar na tarifa, o que significa que
a passagem, que hoje é de R$ 2,50, teria de subir para no mínimo R$
3,10.
O prefeito anunciou que a tarifa do metrô será igual à do ônibus...
É... a tarifa vai ser igual, só que ninguém está dizendo de quanto
vai ser! Então, o que vai acontecer é que 85% dos passageiros que
continuarão andando de ônibus vão ajudar a pagar a passagem dos 15% que
vão andar de metrô. Atualmente, a Urbs já é obrigada a subsidiar a
passagem em 7 centavos [o custo real é maior do que o da tarifa], o que
lhe dá uma despesa mensal de R$ 1,8 milhão.
O senhor concorda que um dia Curitiba vai precisar de metrô? Nesse caso, não é melhor pensar nele já e construí-lo?
Talvez Curitiba não precise nunca de metrô. Há tanta coisa ainda a
ser feita. Tem de espalhar o crescimento da cidade, tem de espalhar a
demanda, tem de tornar o sistema de ônibus mais eficiente, melhorar as
vias de tráfego, fazer sinalização inteligente, incentivar a criação de
empregos em outras regiões, etc... Curitiba vai demorar ainda muito
tempo para apresentar uma demanda em horário de pico que justifiquem um
metrô. Talvez esse dia nem chegue. Não importa quem queira fazer o metrô
nem como vai ser feito. O que importa é quem vai pagar por isso.
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